MPF/RJ luta pela sobrevivência do boto-cinza nas baías de Sepetiba e da Ilha Grande
O Ministério Público Federal (MPF) em Angra dos Reis (RJ) vem atuando, por meio de sucessivas recomendações, para que os órgãos públicos ambientais e de fiscalização tomem providências para paralisar a mortalidade de boto-cinza na baías de Sepetiba e da Ilha Grande. Caso o número alarmante de mortes persista, em menos de dez anos a espécie estará completamente extinta na região. Paralelamente, o MPF também cobra ações para preservação das comunidades pesqueiras nos municípios de Mangaratiba e Itaguaí que, há muito, tiveram suas áreas de pesca invadidas por grandes empreendimentos.
As comunidades pesqueiras também são afetadas. Com a diminuição das áreas de pesca, em virtude dos empreendimentos locais, aumento do tráfego de embarcações e áreas de fundeio, tais pescadores são cada vez mais deslocados de seus locais originais de pesca.
Desde 2015, a procuradora da República Monique Cheker expede recomendações, tanto para aumentar a fiscalização na área, quanto para pedir aos órgãos ambientais estudos específicos em relação ao boto-cinza. No dia 10 de fevereiro de 2016, o MPF de Angra dos Reis expediu a recomendação nº 5/2016 que, após contextualizar todo o histórico de atuação, recomenda aos órgãos públicos a criação de um grupo formal de fiscalização e combate à pesca irregular e predatória, entre Delegacia da Capitania dos Portos em Itacuruçá, Polícia Federal, Ibama, Inea e Secretaria de Meio Ambiente de Mangaratiba, com apresentação obrigatória de cronograma de fiscalização e com presença semanal na Baía de Sepetiba/Ilha Grande.
Caso isto não seja apresentado no prazo máximo de 30 dias, o MPF entenderá que os órgãos públicos não conseguirão resolver a problemática de forma administrativa, sendo necessário o ajuizamento de ação civil pública, com pedido liminar e fixação de multas pelo Poder Judiciário em face da União, do Estado e das respectivas autarquias.
O MPF cobra ainda a realização pelo Ibama, com o auxílio dos demais órgãos públicos, de estudo técnico que verifique a necessidade de mudanças nos critérios e padrões para o ordenamento da pesca praticada na região de habitat do boto-cinza no Baía de Sepetiba/Ilha Grande, em harmonia com a existência na localidade das comunidades tradicionais. O MPF pede que o Inea institua, tendo em vista que é o principal licenciador da área, um Grupo formal para georreferenciar, catalogar todas as medidas compensatórias e mitigatórias que tangenciem a sobrevivência do boto-cinza, reavaliá-las, com o intuito de saber quais são genéricas, repetitivas ou ineficazes; tratar especificamente do Gerenciamento Costeiro do local e dos impactos cumulativos dos empreendimentos, inclusive em relação à diminuição das áreas de pesca, de coleta de marisco e aumento das rotas para a pesca, com imposição de medidas aos empreendimentos que possam resultar na aferição efetiva e concreta das causas e redução das mortes dos botos (colocando obrigatoriamente esse o parâmetro de análise sobre a eficácia ou não das medidas). O MPF entende como essencial, para dar legitimidade a esse processo, a participação do Instituto Boto-Cinza e do MAQUA, o Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores da UERJ.
O Inea deve ainda estruturar, dentro dos mecanismos existentes nos licenciamentos das diversas atividades empresariais no local, o Instituto Boto-Cinza para promover o turismo de base comunitário com os pescadores da Baía de Sepetiba/Ilha Grande, e realizar estudos de capacidade de suporte na Baía de Sepetiba/Ilha Grande, tendo como principal foco o boto-cinza e a subsistência das comunidades tradicionais pesqueiras, não realizando mais qualquer outro licenciamento no local que possa causar impactos no boto-cinza e na comunidade pesqueira.
Na recomendação, o MPF pede o Início imediato dos trâmites, pela Companhia Docas do Rio de Janeiro, junto com a Delegacia da Capitania dos Portos de Itacuruçá, para revisão das áreas de fundeio, sobrepostas com áreas de pesca e áreas de agregação do boto-cinza (Solatia guianensis), com participação obrigatória do Ibama e do Inea, no que tange à preservação do boto-cinza, bem como inclusão dos planos de gerenciamento costeiro e de pesca.
Para a procuradora da República Monique Cheker, responsável pelo caso, “o Rio de Janeiro está diante de uma situação emergencial. Trata-se da extinção completa de espécie símbolo do Estado e também da luta de pescadores locais que foram deslocados de suas áreas originais pela presença descontrolada da ampliação portuária. São fatos graves que não admitem mais postergações, e exigem uma atuação concreta”.
Confira a íntegra da recomendação aqui.
(Inquérito civil PRM-Angra dos Reis n. 1.30.014.000082/2014-52)
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